sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

DIJA

Entraram no quarto de motel, ela foi logo se despindo, deixando à mostra os seios túmidos de auréolas marrons, as nádegas salientes e provocantes, as coxas morenas e lisas, a vulva carnuda de pelos rentes.
--Você é rápida. – ele observou quase numa queixa.
--Sou profissional, -- a mulher respondeu secamente e de pronto – não sou sua amante.O homem sentou-se na cama e ajeitou os cabelos grisalhos caídos ao rosto, ironizou-a:
--Esse teu jeitinho “doce e sensual” dá na gente tesão de ir embora, de rezar, de ler,menos de foder.
--Isso é desculpa tua, porque tu é velho e tá bêbado, e sabe que vai broxar.
Ele riu-se de leve, deu-lhe a mão e ambos foram para o banho.Buliram-se no chuveiro, a morena colocou-lhe o preservativo e os dois transaram ali mesmo.
--Viu como eu não tô tão bêbado? – ele dizia com algum gracejo.
--Vi que você não é tão broxa. – ela redargüia também gracejando.
Os dois se deitaram abraçados, ele colocou a cabeça da moça em seu peito, indagou enquanto acendia um cigarro:--O que levou você a parar nessa vida?
Ela apoquentou-se, erguendo a cabeça:
--Vai dar uma de babaca e ficar me dando conselho?
Ele fez um gesto de indiferença:
--Nada! Cada um faz da sua vida o que quer. Só perguntei por curiosidade.
--Qual é o seu nome? – ela quis saber.
--Raul. E o seu?--Me chama de Dija.
--Dija? Qual é a origem desse nome?
Ela sorriu:
--É meu nome abreviado...
--E qual é o teu nome inteiro?--Dejanira... Maria Dejanira... Mas eu prefiro que as pessoas me chamem de Dija porque é mais bonito.
--Eu também acho.
--Mas eu já tô adotando outro nome... um internacional! Muito mais bonito!
--Ah, é?--Eu agora, quando faço “strip-tease”, já uso esse nome artístico. Adotei esse nome porque, há mais ou menos um mês, um gringo que me comeu ficava, enquanto fodia, o tempo todo doidinho e me dizendo no ouvido: “wonderful bitch... wonderful bitch!”
Raul ria achando muita graça:
--Porra, deixa de ser burra! “Bitch” é cadela, cachorra, nome que no inglês designa prostituta, vagabunda, puta... Ele te chamou de puta maravilhosa, cadela magnífica, só porque tava gostando da foda, ora!
A mulher se viu decepcionada com o gringo e o codinome:
--Que filho da puta!
Ele a consolava:
--Não tem problema: adota só o “wonderful” e tá tudo bem. Você tira “cadela” e fica só “magnífica”, tá?
--É verdade. Até que ficou bom: Wonderful, -- empostava a voz para experimentar -- a grande Wonderful!
Raul franziu a testa com certa estranheza:
--Você gosta da profissão que tem?
--É o que melhor eu sei fazer.
--Mas me responde: você gosta do que faz?
Ela tinha um olhar distante:
--No começo, eu ficava com medo, sentia nojo, mas depois perdi o medo e o nojo. Hoje eu gosto de ser puta.
--Verdade?
--Eu sou um sucesso. A maioria dos homens me procura, eles ficam maluquinhos de tesão comigo. Eles me aplaudem quando eu faço “strip-tease”, os gringos vibram comigo... e eu me sinto gratificada... E eu nasci muito pobre... e as pessoas nunca ligaram muito pra mim antes de eu ser puta.
Agora o olhar dela estava impregnado de tristeza:
--A minha mãe também foi da vida. Fazia ponto num mafuá que ficava na Praia de Ramos: o “Bambu”, você já ouviu falar? O Bambu de Ramos...
--Não, nunca ouvi falar...
--Só conheceu o Bambu quem mora no subúrbio. Eu mesma morei mas não conheci, acho que era muito pequena quando acabou, não me lembro. Contavam que a minha mãe era muito bonita, os homens só queriam saber de foder com ela: era Maria da Conceição, a “Rainha do Bambu”.
--Ela já morreu?
--Morreu. Em 1986. De câncer...
--Ela ainda tava na vida?--Nada! Ela já não era mais bonita
"Eu nasci em 73. Não sei quem foi meu pai; minha mãe emprenhou na vida. Ela foi prostituta, mas eu acho que não queria que eu fosse. Mas ela não se sentia com moral – sabe? --, coitada(!), pra me dizer que não queria que eu fosse puta.”
“Quando o Bambu acabou, ela passou a me deixar na casa de vizinhas pra ela poder ir prá Tiradentes. Ela era do Sergipe e a gente não tinha nenhum parente no Rio, eu tinha que dormir nas casas das vizinhas."
“Aí minha mãe foi ficando velha, feia, e acabou vendendo bala nos ônibus. Quando eu tinha oito anos, ela ainda era da vida, mas não queria que eu soubesse. Ou melhor: ela sabia que eu sabia, mas fingia que não sabia, entende?”
“Quando eu tinha treze anos, ela morreu, e eu não sabia o que fazer da minha vida. Fui empregada doméstica, mas o marido da minha patroa me comeu à força, fui jogada na rua, dormi muito na rua, fui comida à força outras vezes, outras vezes dei pra ter o que comer, outras vezes dei por prazer. Aí fui parar na Tiradentes. Alguns caras se interessavam por mim: um me levou prá Mimosa. Outro, me levou pr’uma termas de Campinho e, de lá pra cá, de termas em termas, boate em boate, inferninho em inferninho, eu tô aí, fazendo sucesso, em Ipanema, Copacabana, Leblon... ‘rainha’ dos puteiros!”
Raul a encarou longamente, quis dizer alguma coisa, mas calou por medo de parecer paternal. Brincou, então:
--Você me achou com cara de psicanalista?
--Desculpa, amorzinho... Te enchi muito?
--Não...—ele sorriu com doçura.
--E você?! Agora é tua vez! Conta o que é que tu faz na vida!
--Eu sou engenheiro, tenho uma firma de engenharia em Botafogo.
--Qual a tua idade?
--Cinqüenta e cinco.
--É casado?
--Sou.
--E o que é que você foi fazer num puteiro?
Raul tomou as mãos dela nas suas e falou de maneira pausada, olhos nos olhos da moça:
--Me responde uma coisa, gostosinha: e o que faz alguém dentro de um casamento?Ou dentro dos padrões preestabelecidos pelas suas relações sociais e profissionais? Você sabia que já me relacionei comercialmente com muito empresário safado, administrador público desonesto, político escroto, além do que não confio na minha mulher e há muita gente suja com quem lido por obrigação social. Então eu te pergunto: em que a sociedade é mais elevada que um bordel?
--Não sei. -- ela não o entendia bem. Depois queria saber:--Você frequenta sempre os puteiros?
--Não, não frequento, não vou nunca. Mas hoje eu mandei tudo à merda, tudo se foder, e tô aqui, de porre, na cama, com você. – e repetia: -- Que tudo se foda! Que tudo vá prá merda! Não creio mais em nada, tô cansado de tudo... Tô com o saco cheio de tudo! Que tudo vá prá merda!
Em seguida os dois se entreolharam, ficaram assim por alguns momentos e depois riram um para outro.
--A gente veio aqui pra foder ou pra conversar?—ele perguntou numa galhofa.
Dija deu uma gargalhada franca, saborosa, e os parceiros se agarraram avidamente. Quando amanheceu, banharam-se e ela se vestiu rapidamente.
--Quer uma carona até a sua casa? – Raul perguntou.
--Não precisa, eu moro aqui por perto, num apartamento com umas colegas.
Ele calçava os sapatos, ela avisou:
--Vou embora antes de você. Você se incomoda?
--Não. – o homem não se importava.
Dija abriu a porta que dava acesso ao corredor , ia saindo quando ele a chamou:--Dija?...
Ela parou à porta do quarto, ele se levantou e caminhou até diante da moça:
--Seja feliz. –despediu-se beijando-lhe a testa, numa ternura comovida.
Ela sorriu com a mesmo afeto, desvanecida, os olhos umedecidos; beijou o rosto dele e se foi, meiga, suave... afável e frágil menina.


fim

1997

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